terça-feira, 19 de junho de 2012

A verdade

Avenida principal, meio dia. Segunda-Feira.
Benedito, quase nos seus 30 anos, almoçava no restaurante quando ouviu, como de costume, um pastor que passava pregando na calçada. Naquele dia o ateu não se conteve.
Em meio ao discurso evangelizador do pastor, prometendo rendição em nome de Jesus, haviam as críticas embasadas na Física e as críticas anti-dízimo de Benedito. Um com o Evangelho para cima e o outro carregando a maleta da firma. Os dois discutiam fervorosamente enquanto andavam fingindo não se importar com os argumentos do outro.

Discutindo os dois atravessaram na esquina, sem tirar os olhos do rival. Aí... nem Jesus salva, muito menos a Física. Garantiram uma pintura nova num ônibus lotado e o trauma do motorista.

Logo Benedito e o Pastor estavam em um hospital, acompanhados de uma moça de negro que lhes disse algo como "não saiam de perto de mim". Logo depois riu para si como quem é o único que entende a própria piada. Apesar de também terem ouvido ela dizer "silenciosos como um túmulo", continuaram discutindo.
Enquanto isso a moça observava a ocorrência de um parto. A "em-breve-mamãe" gritava como se não houvesse amanhã. O pastor gritava como se Deus fosse surdo e o ateu gritava como... bem, o tanto quanto sua anatomia o permitisse. A moça só observava, esperando. A criança nasceu, o pastor falava do milagre e o ateu falava da continuidade da espécie.

O velho médico, exausto, foi para a pia, quando escutou um baque. Um barulho oco de algo colidindo com o chão. Ele ficou vermelho, branco, amarelo-fúcsia. Se virou a tempo de ver que o bebê seguro nos braços da mãe e uma enfermeita pegando um objeto qualquer no piso. Seu coração infelizmente não lhe deu o tempo de respirar aliviado. Logo ele estava parado, olhando pasmo para aquela mulher de negro que riscava um nome numa grande lista e, logo atrás dela, dois homens discutindo sobre como Deus escreve certo em linhas tortas ou como a velhice deixa o coração mais frágil.
A moça ensaiou um sorriso falso.
- Vocês se preocupam tanto em convencer uns aos outros de algo tão pessoal que não param para convencer a si mesmos. E eu realmente não ligo.

domingo, 6 de novembro de 2011

A festa

Na noite do primeiro para o segundo dia do mês de Novembro, uma dama de negro observava do terraço de um sobrado as festividades do povo mexicano.
- Vamos demorar muito? - Perguntou Flávio. Ele a conhecera há algumas horas, após um acidente envolvendo um carro, uma caminhonete que transportava tilápias e um jetsky. A dama fez que não com a cabeça enquanto vestia um chapéu florido que encontrou no parapeito.
- Meus prediletos - ela disse, apontando para grandes peças em formato de crânio que as pessoas carregavam no desfile.
Ele observou.
- Nunca entendi isso...
- São crânios - disse, desinteressada.
- Isso eu entendi, o que eu nunca entendi é a necessidade de prestar homenagem a morte...
- Não comemoram a vida? Por que não comemorar a morte?
- Ué, é óbvio que... - foi interrompido.
- Vocês morrem tantas vezes durante a vida, em tantos graus diferentes, e comemoram...

Flávio pensou em retrucar, mas em sua mente só veio uma lembrança amarga e cheia de culpa. Durou pouco, já que logo essa lembrança foi substituída pela imagem de uma tilápia. "Acidente uma ova..."
A moça sentou-se no parapeito.
- Veja as pinturas nos rostos... bem melhor que ficar de luto - ela divagou.
- Eu gostaria mesmo é de viver para sempre...
- Curtir a velhice estendida?
- Não, não... aí eu seria jovem.
- Mas então você não viveria para sempre.
- Claro que sim.
- Você vive para sempre ficando velho, ou é jovem morrendo. Não se pode viver sem envelhecer e só escapa da velhice quem já morreu.
- Quer dizer que a velhice é inevitável?
- Quero dizer que a fonte da vida eterna é a morte. - dizia a dama tirando o chapéu e colocando-o de volta no parapeito.
- Ironia...
- Não preciso ser irônica, a vida já é - enquanto ela se levantava, um homem no desfile tropeçou e caiu na sarjeta, batendo a cabeça na calçada violentamente. Flávio olhou perplexo. - Você realmente achou que eu vim ver o desfile?

domingo, 4 de setembro de 2011

A melancia

Quando Elizangelo abriu os olhos viu, perto da lâmina ensanguentada, uma dama de negro com cara de tédio e uma lista nas mãos.
- Por favor - ele disse com a voz fraca - não tente me impedir. É o que eu quero, é o que eu escolhi...

Ela olhou para ele, para os cortes nos pulsos do rapaz, para a lâmina no chão, para a porta destrancada e para a foto da namorada (ou ex) na estante ao lado de um celular.
- Belo plano. Mas parece que ela não chegou a tempo - disse a moça, anotando algo na lista.

O rapaz olhou para o relógio. Logo percebeu.
- Epa. Houve algum engano - disse ele tampando os cortes com as mãos.
- Se arrependeu?
Ele olhou para os lados, tentando pensar em algo.
- Não era bem assim... talvez se eu pudesse esperar só mais alguns minutos antes de ir, para poder me despedir... - ele argumentava enquanto ela o puxava pelo braço para que se levantasse.
- Sabe aquela frase sobre a melancia no pescoço? Não tem autoria porque ninguém escreve meu nome...

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A igualdade

A moça de negro disse calmamente:
- Preste atenção no que vou te contar...

"Quando Severino e Saulo nasceram, mesmo em hospitais diferentes, logo rivalizaram. Saulo ria e Severino chorava. O último mentalizava enquanto não podia dizer: "Um dia você vai perceber que somos iguais".

"Nós dois usamos roupas!"
Na maternidade, Saulo usou seda e Severino 50% poliéster.

"Ok, mas nós dois nos alimentamos!"
A mãe de Saulo tomava complementos, complexos e Kopenhagem. A mãe de Severino, restodontè.

"E daí? Nós dois usamos o banheiro!"
O vaso sanitário de Saulo tinha aquecedor de acento e a geladeira, mamão papaya. A privada de Severino tinha uma tampa de plástico ressecada e a geladeira quase nada.

"Mas você precisa concordar, nós dois trabalhamos!"
Saulo era o chefe.

Saulo sofreu um acidente em seu jatinho particular. Severino foi atropelado por um Fusca."

A dama de negro abriu a porta enquanto concluía:
- Severino tinha razão.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Revolução no escritório: o novo cliente

Sr. Nelson estava eufórico. Um possível novo cliente, dono de uma grande empresa do ramo de produção de guarda-chuvas, chegaria em breve.
Sr. Nelson estava eufórico. E seus funcionários estavam à beira de um ataque de pânico, pois era um dia importante. E dizem que da última vez que alguém estragou "um dia importante", o infeliz foi arremessado seminu do vigésimo quinto andar. Abraçado com um ventilador de teto (esse era um importante detalhe).

Dona Zita chegou duas horas antes para limpar tudo. E continuou limpando. E continuaria limpando quando o cliente entrasse na sala de reuniões. Joyce, a recepcionista, filha do chefe, estava usando a Roupa do Dia Importante, era uma roupa particularmente bonita e elegante, na qual Sr. Nelson havia gastado os rins para comprar. Paulo José, o novo estagiário, estava pálido e frio. Deram por morto duas vezes, mas claro que era brincadeira... claro...

Quando Roberto, do setor de RH, subiu correndo no escritório gritando "Ele chegou! Ele chegou!", todos paralizaram. Entreolharam-se. Os mais religiosos fizeram o sinal da cruz. Os menos também. Todos sentaram-se em seus devidos lugares, quando Sr. Nelson saiu de sua sala e foi esperar o possível cliente na frente da sala de reuniões.

O dono da Os Sete Anões Sombrinhas e Guarda-Chuvas entrou em cena. Caminhava como um rei através do escritório, passando por entre as mesas e cubículos, por onde alguns funcionários espiavam seu poder. Tudo se passava em câmera lenta. Sr. Nelson sentiu que era aquele o dia. Se sentiu forte e capaz. Sorriu diante da imagem em sua mente, da Kawasaki Ninja que compraria, da bolsa Prada para a filha, da mansão com heliponto. Sorriu como se seu apelido fosse Gatinho da Alice.

Foi então que o cliente pisou numa cueca no chão, escorregou e bateu a cabeça na quina de uma das mesas.
Todos silenciaram suas mentes.

Alguém foi arremessado do vigésimo quinto, seminu, abraçado com uma cueca.